*Resenha de Texto*: “Cultura e Materialismo” de Raymond Williams.

Leitura realizada dos Capítulos 1 e 2, do dia 04/08 à 09/08.


Quem é Raymond Williams? 

Raymond Williams (31 de agosto de 1921 – 26 de janeiro de 1988) foi um acadêmico, sociólogo e teórico da comunicação e da cultura, crítico de arte, contista e novelista Galês. Raymond Williams nasceu em Llanfihangel Crucorney, vilarejo do País de Gales. Filho de família ferroviária assentada em áreas rurais, travou contato desde cedo com o movimento operário e os partidos do campo progressista. Manteve vínculos políticos tanto com o Partido Comunista da Grã-Bretanha quanto com o Partido Trabalhista britânico (o Labour). 

Pensador de formação política e cultural híbrida, a qual revela as marcas indeléveis de suas múltiplas influências, Williams iniciou sua trajetória intelectual nos ambientes do movimento operário inglês. Estudou em Cambridge através de bolsas de estudo, e ingressou no mundo acadêmico. Seus escritos em política, cultura, literatura e cultura de massas refletiram seu pensamento marxista. Foi uma figura influente dentro da Nova Esquerda e na teoria cultural em geral. Suas principais obras foram: “Cultural Materialism”, “Mobile Privatization”, “Politics of Modernism: Against the New Conformists”. (fonte: wikipédia)


Contexto histórico do autor…

Infelizmente não posso comentar a obra como um todo, uma vez que só tenha lido os primeiros dois capítulos. Muito menos o conjunto de suas obras, das quais ainda não possui acesso, por uma questão muito objetiva e clara: os estudos de cultura, por mais que sejam interessantes ou importantes, não fazem parte do meu escopo de análise científica, ainda que possam aparecer vez ou outra, de maneira tangencial. 

Feita essa ressalva, gostaria explicitar a trajetória da minha análise que parte de um comentário dos estudos do autor em confluência com seu período histórico, para a partir daí fazer a análise da leitura parcial e bastante deficitária do livro e com base em todas as palestras da professora Drª. Maria Elisa Cevasco (especialista em Estudos de Cultura e no autor em questão), que encontrei disponível no Youtube

Raymond Williams parte de uma análise bastante comum ao “eurocomunismo”, sobretudo na segunda metade do século XX: “uma vez que não há nada que possa ser feito sobre o capitalismo” - que agora assume uma inevitabilidade histórica -, “o que resta é a disputa pelos meios de formação ideológica, para apelar à classe que retome sua tarefa revolucionária”. Ou seja, o “eurocomunismo” sofre derrotas sucessivas, caminha à passos largos para a aniquilação de suas formas históricas de luta - sobretudo após a derrota soviética -, mas se render ao pensamento de que TALVEZ a tarefa histórica de libertação do proletariado não esteja nas mãos da classe trabalhadora européia. Isso seria inadmissível! 

O livro data de 1980, mas é uma coletânea de escritos de 1958 a 1980, ou seja, nesse período a Europa assiste a ascensão da luta anticolonial em toda periferia do sistema capitalista, enquanto o “eurocomunismo” se opõem a essas lutas. Denunciam o caos, o horror, a violência e as violações dos direitos humanos que se amontoaram na ONU,  optam por olhar para os estudos de cultura como a ÚNICA solução possível à nova organização do capitalismo mundial: o neoliberalismo. Não é sem razão que o marxismo europeu se tornou uma ferramenta acadêmica, quase obsoleta, incapaz de ver o mundo através do véu da ideologia! Salvando-se, claro, algumas raras exceções!

Em destaque Polônia, Nicarágua e Argélia, mas sem nos esquecer dos golpes e ditaduras militares por toda América Latina, Guerra pelos Direitos Civis nos EUA, luta anticolonial por quase todo continente africano, Oriente Médio e sudeste asiático, nada foi capaz de acessar a tão conclamada “solidariedade de classe” dos intelectuais do proletariado europeu; que se volta a cultura como seu único meio de lutas e disputas. Novamente: existem claras exceções à essa regra, como Domênico Losurdo, Noam Chomsky, Jean-Paul Sartre, entre outros, mas essa não é a regra dentre os “eurocomunistas”. 

Infelizmente William é um eurocomunista que não foge à regra! Mas, independentemente disso, ele faz avanços significativos na análise cultural, se opondo, em especial, à "Teoria dos Gostos"¹, que degringola para o pós-estruturalismo muito rapidamente. 

A apropriação do debate estrutura x superestrutura, hegemonia e aparelhos de hegemonia, predominantes nos escritos gramscianos, ganham nas mão de Raymond Williams um novo contorno: muito mais aprofundados e com avanços significativos.


Sobre a obra…

A obra começa um apelo saudosista à luta pelo sufrágio universal empreendida pelos trabalhadores ingleses a “Reform League” e os direitos de manifestações em oposição à ideia de ordem pública proclamada pelo parlamento inglês. Daí viajamos por uma argumentação do tipo Razão versus Natureza e as transformações do Estado Burguês, que perde sua característica iluminista como “uma necessidade de organização natural humana” e se transforma numa administração coorporativa, e como essa mudança na estrutura do aparelho estatal interfere no campo científico opondo ciências naturais e ciências humanas. A busca pelas verdades e leis universais se transforma em algo transitório e elástico, transformando ciência em cientificismo.  


“ A diferença marcante entre os estudos das ciências naturais e o das humanidades não é apenas uma questão de perguntas inevitáveis dos valores expressos e ativos. É também uma questão da natureza da mudança: que as sociedades e as literaturas possuem histórias humanas ativas e conflitantes, sempre separáveis de valores ativos. Mas na literatura, como em alguns estudos sociais, históricos e antropológicos, esses fatos de mudança podem ser projetados em uma totalidade aparente que possui a vantagem de contê-los, tornando-os, finalmente imóveis como as pedras. Com a exceção, é claro, do fato de que nas ciências naturais logo aprendemos, mesmo contra a nossa experiência cotidiana, que apenas algumas pedras mantêm-se imóveis, e que mesmo essas são produtos das mudanças: a história contínua da Terra.” (pág. 21-22)


A partir desse ponto, Raymond começa uma discussão sobre a crise cultural da tradição e seu papel ideológico na sociedade: projetando e moldando, ao mesmo tempo, é projetada e moldada; questionando a realidade social na qual um autor e a sua obra são produzidos e da “elaboração de ideias dentro de certos limites polidos, embora definitivos”². Denuncia a mistificação como uma desumanização e a naturalização da abstração como uma estrutura de poder dentro de um microcosmo, o que transforma a reificação no correlato objetivo e a mediação em catarse. 

No entanto, ao seguir a concepção da intelectualidade da 2ª Internacional³ sobre a categoria marxiana de ideologia, comete o erro crasso de “falsa realidade”, mas no geral, não percebi que esse equívoco comprometesse o desenrolar do argumento central. Logo após, Williams se detém mais ao debate de base e superestrutura: onde a base econômica sobredetermina as relações sociais que, por sua vez, determinam a consciência de uma época produzindo as ideias e as formas culturais; criticando a “consciência real” e a “consciência possível”, elaborada por György Lukács, salientado os avanços e limitações dessa elaboração.

No pensamento de Raymond essa relação base e superestrutura aparecem como um processo dialeticamente constituído, fruto de uma intenção social regida por uma classe social particular, que desvela a realidade da dominação eficaz selecionando significados e práticas do passado e presente, através da “hegemonia” incorporada e vivida pelos sujeitos da sociedade e que, por isso, abarca a completude de suas existências, opondo-se a categoria de “totalidade”.  


“A hegemonia constitui, então, um sentido de realidade para a maioria das pessoas em uma sociedade, um sentido absoluto por se tratar de uma realidade vivida além da qual se  torna muito difícil para a maioria dos membros da sociedade mover-se, e que abrange muitas áreas de suas vidas. (...) Só podemos entender uma cultura efetiva e dominante se compreendermos o processo real do qual ela depende: refiro-me ao processo de incorporação.” (pág. 53-54)


Na busca da possibilidade de fazer emergir uma nova formação e consciência que pudesse fazer frente à essa concepção hegemônica, o autor se debruça sobre as formas de cultura residuais e emergentes, destacando a última como a possibilidade de ação mais promissora, uma vez que a Arte é, também, um processo social. Nesse sentido, evidencia a incapacidade das formas de cultura dominante, conhecidas até então, de dar conta dos fenômenos sociais humanos em sua completude. Dessa maneira, opondo-se frontalmente às “Teorias do Gosto” salientando o aspecto mercadológico que encerra a arte no modo de produção capitalista, fugindo assim do subjetivismo das concepções metafísicas de cunho naturalista, presentes nessas correntes. 

Há esse ponto, podemos estabelecer uma correlação entre Raymond Williams e Walter Benjamin, quanto ao tempo histórico - historicista - vazio e homogêneo e as formas de arte que dele derivam. (Nos aprofundaremos nesse aspecto na próxima resenha)

Já no início do tópico “Meios de Comunicação como Meios de Produção” Williams faz uma afirmação “os meios de comunicação, tanto como os produtos como meios de produção, estão diretamente subordinados ao desenvolvimento histórico”4, essa não me parece coerente com a teoria marxiana do desenvolvimento histórico por alguns motivos: primeiro, os meios de produção e os produtos são colocados em pé de igualdade; e segundo, parece que o desenvolvimento histórico subordina os modos de produção.

No início da “Ideologia Alemã”, Marx fala: 


“A produção da vida, tanto da própria, no trabalho, quanto da alheia, na procriação, aparece desde já como uma relação dupla – de um lado, como relação natural, de outro como relação social –, social no sentido de que por ela se entende a cooperação de vários indivíduos, sejam quais forem as condições, o modo e a finalidade. Segue-se daí que um determinado modo de produção ou uma determinada fase industrial estão sempre ligados a um determinado modo de cooperação ou a uma determinada fase social – modo de cooperação que é, ele próprio, uma “força produtiva” –, que a soma das forças produtivas acessíveis ao homem condiciona o estado social e que, portanto, a “história da humanidade” deve ser estudada e elaborada sempre em conexão com a história da indústria e das trocas.” (Karl Marx, 1843. pp. 34)



Um pouco mais de 15 anos, no prefácio da “Contribuição à Economia Política”, Marx afirma: 


“O resultado geral a que cheguei e que, uma vez obtido, serviu-me de guia para meus estudos, pode ser formulado, resumidamente, assim: na produção social da própria existência, os homens entram em relações determinadas, necessárias, independentes de sua vontade; essas relações de produção correspondem a um  grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais. A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência. O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; ao contrário, é o seu ser social que determina sua consciência.” (Karl Marx, 1859. pp. 48)


Procurei destacar os dois textos de períodos históricos diferentes para sustentar a tese de que a afirmação de Raymond Williams não encontra respaldo na teoria marxiana - e não sabemos se essa afirmação se baseia inteiramente na obra de Marx. Os produtos, ou como Marx denomina, as mercadorias, são categorias históricas que mudam de significado ao longo do processo histórico, e só no modo de produção capitalista é que o valor de troca dessas encontram um fim em si mesma5. Dessa forma, se se quisesse realizar essa afirmação nos termos marxianos, o correto seria: os meios de comunicação, tanto como os produtos estão diretamente subordinados aos meios de produção, bem como ao desenvolvimento histórico. Se localizamos uma imprudência teórica , como demonstrado acima, não houve, porém, ao localizar os produtos comunicacionais na esfera ideológica - e fetichizada - do capitalismo. 

A partir desse momento, o autor se dedica a estudar de maneira mais imersiva a produção cultural desde a sua produção física (equipamentos, relações trabalhistas dos profissionais da área, aparelhos nos quais se faz a vinculação de produtos culturais, etc) e a produção de cultura (os produtos culturais em si). Um outro ponto importante na análise de Williams, é a procura incessante por desnaturalizar todo o processo produtivo, os produtos culturais e as relações que se engendram a partir e através desses. Existe uma denúncia constante do controle de acesso, segmentação e redirecionamento dos produtos culturais para as classes e suas frações. 

No final do capítulo o autor se dispõe a discutir a cultura numa perspectiva revolucionária - o que demonstra que, apesar dele dar a primazia necessária às lutas de libertação que ocorriam na periferia do sistema capitalista, Raymond não havia entrado na letargia do canto da sereia social democrata. Para encerrar esta resenha crítica dos dois primeiros capítulos do texto  “Cultura e Materialismo”, gostaria de destacar mais uma importante passagem. 


“A reificação terá de ser distinguida da composição aberta e consciente das obras (...). A desmistificação crítica deve continuar, mas sempre associada à prática: à prática regular, como parte da educação normal nesse processo de trabalho transformador; a prática na produção de ‘imagens’ alternativas de um ‘mesmo evento’; na prática nos processos de edição básica e de construção de sequências; e a prática, seguindo essa linha na composição autônoma direta.” (pág. 85)


Impressões pessoais…

Depois de todo esse trajeto analítico, posso afirmar com a mais absoluta certeza de que Raymond Williams se faz entender muito bem, até para uma pessoa que não tem interesse em matéria de estudos de cultura, como eu. A leitura é densa e bastante e te faz ir junto com o autor, transitando pelo universo que ele procura demonstrar de forma tão hábil. Certamente irei retornar à leitura dessa obra, assim que conseguir dar conta dos outros livros que preciso ler. 

Indico muito a leitura, sobretudo a leitura comparativa entre Raymond Williams e Pierre Bourdieu. 

_____________
1. Boudieu, Pierre. "Coisas Ditas", São Paulo: Brasiliense, 2004.
2. Op. cit. pp. 16.
3. Iasi, Mauro. “Consciência e ideologia: para além dos muros de pedra (ensaios)”, Cortez Editora, 2023.
4.  Op. cit. pp. 69.
5.  Marx, Karl. “O Capital [Livro I] Crítica da Economia Política”. Tradução Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013

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