*Resenha de Texto*: Sobre o Conceito de História de Walter Benjamin

Leitura realizada da obra completa,  do dia 09/08 a 30/08.


Quem é Walter Benjamin?

Walter Benjamin

Walter Benedix Schönflies Benjamin (Berlim, 15 de julho de 1892 — Portbou, 27 de setembro de 1940) foi um ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão. Associado à Escola de Frankfurt e à Teoria Crítica, foi fortemente inspirado tanto por autores marxistas, como Bertolt Brecht, como pelo místico judaico Gershom Scholem. Entre as suas obras mais conhecidas, contam-se “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica” (1936), “Teses Sobre o Conceito de História” (1940) e a monumental e inacabada Paris, Capital do século XIX, enquanto “A Tarefa do Tradutor” constitui referência incontornável dos estudos literários. (fonte: wikipédia)



Contexto histórico do autor…

Walter Benjamin, de origem judaica, nascido em Alemanha justamente no momento de ascensão do nazifascismo, regime gestado e administrado nas colônias, que agora voltava-se em refluxo contra suas entranhas européias, como um filho rebelde que volta-se contra os pais em busca de vingança por sua infância permissiva. Ele suicida-se em meio ao caos e desespero. Quantas coisas maravilhosas poderiam ter sido feitas por ele? Nunca saberemos, assim como nunca saberemos os nomes daqueles que serviram de tributo ao sacrifício no altar do capitalismo insurgente.

Madras - Índia 1877 (Fome provocada pelo domínio colonial ingês)
Falo isso porque é importante lembrar que para cada gota de sangue derramado dentro da europa, houve o correspondente em vidas nas colônias de Oceania, Ásia, África e América ao longo dos quase 500 anos de colonização - há época -, e que as vítimas deste triste episódio da história, poderia ter sido evitada com o exercício de solidariedade de classe. Lembrando Aimé Césaire em sua grande obra “Discurso sobre o colonialismo”:


“A verdade é que eu disse uma coisa totalmente diferente, a saber: que o grande drama histórico da África não foi tanto o seu contato demasiado tardio com o resto do Mundo, como a maneira como esse contato se operou; que foi no momento em que a Europa caiu nas mãos dos financeiros e capitães da indústria, os mais desprovidos de escrúpulos, que a Europa se "propagou"; que o nosso azar quis que fosse a Europa que encontramos no nosso caminho e que a Europa tem contas a prestar perante a comunidade humana pela maior pilhagem de cadáveres da história.” (Césaire, 1955. pp. 27 - 28)

Em nossa ética, não é possível falar de tal horror, sem esse tributo àqueles que serviram - e seguem seguindo - de tributo no laboratório sanguinário do nazifascismo europeu. Mas por que falar disso?

Porque Walter Benjamin lança as bases historiográficas que irá possibilitar a elaboração intelectual e científica nas mais diversas áreas (antropologia, história, sociologia, filologia, psicanálise, ciências sociais, etc…) do que foi a colonização e seus impactos na periferia do sistema capitalista global, e que irão servir ao propósito das lutas independentistas e antiimperialistas, sobretudo, na segunda metade do século XX no Oriente Médio, África e Ásia. Por isso, sua contribuição é teórica e intelectual, mas seus desdobramentos práticos na organização e na luta material da classe trabalhadora mundial é incontornável. 


Sobre a obra…

Capa do Livro "Sobre o Conceito de História"
Para quem gosta de uma leitura teórica mais “hard”, recheada de análises diretas, gráficos, dados estatísticos e análise documental, como eu, provavelmente irá se entediar um pouco durante o processo de leitura. Não que esses elementos estejam de todo ausentes, mas é que esse livro é de outra natureza. A organização de Adalberto Müller e Márcio Seligmann-Silva procura fazer um tributo à memória de Benjamin, correlacionando as passagens com o todo de sua obra, mostrando o contínuo fluxo de pensamento que culmina na sua elaboração final, eu poderia dizer que sem as notas de rodapé, a leitura desse livro é quase impossível. Essa não foi uma obra que me permitiu uma imersão total, no entanto, ela fez minha cabeça explodir em alguns momentos. 

Uma dessas explosões vem da defesa de Benjamin do enlace entre materialismo histórico e teologia, que pode ser observado em Marx e Engels e que há muito foi substituído em detrimento da luta prática imediata, sobretudo após a tomada do poder pela classe trabalhadora na Revolução Russa. Existe um apelo em toda sua obra pela volta desse casamento. Muitos que ainda estão no início de sua jornada de acúmulo, poderão tender a desprezar essa ligação umbilical e contraditória que existe - e sempre existiu - entre essas duas correntes tão distintas. Talvez, esse seja um dos nossos maiores desafios internos que precisamos vencer nas correntes marxistas atuais: reabilitar a teologia dentro de uma crítica contundente, filosófica e materialista histórica; para que possamos fazer frente às investidas ideológicas que reabilitam e atualizam o fascismo, por exemplo. Além disso, a ideologia burguesa tem como principal função criar legitimidade para a atual fase do capitalismo e seus reiterados ciclos de expropriação para a acumulação. Em todas as notas de Benjamin evidencia que: é uma elaboração teológica guiada pelo materialismo histórico que poderá travar uma luta radical no âmbito ideológico, que se tornou um dos principais sustentáculos da atual fase do capitalismo contemporâneo.

Outra grata surpresa, foi uma reelaboração do sentido de memória. Nessa obra, a memória não é aquela que se liga ao esquecimento, mas antes, pertencem ao processo complexo de trauma freudiano, onde memória e esquecimento são parte do mesmo processo analítico da elaboração e, portanto, tem-nos muito a comunicar. Dessa forma, a oposição da memória passa a ser a não-existência, ligando-se filosoficamente ao “ser” e “não-ser”.

A partir dessa reelaboração da memória, onde o esquecimento se liga àquilo que se lembra de maneira irremediável, é possível rever a historiografia sobre uma nova perspectiva onde os processos anteriores e posteriores se ligam, não como uma cadeia contínua de acontecimentos, mas como desdobramentos dinâmicos, onde a história perde sua qualidade messiânica (de verdade revelada) e passa à dimensão mundana, passível a crítica e a releitura. A historiografia historicista se opõe à historiografia materialista, por imprimir na história sua letargia e imobilidade, nesse sentido, podemos observar a primeira potência de Benjamin naquilo que Fanon chamava de “devolver o homem ao homem”, é dessa forma que o historicismo se torna uma ferramenta da classe dominante. Em outras palavras, o materialismo histórico dialético, ao devolver a dinamicidade à história, devolve também aos sujeitos históricos a possibilidade de se mover e interferir no processo histórico fazendo desencadear uma série de eventos, através de suas ações, desvelando novas possibilidades de ação e reação. “O sujeito do conhecimento histórico é a própria classe oprimida em combate.” (Benjamin, 2009. pp. 31) Entendendo essa premissa, fica muito mais clara a constatação de Marx sobre o motor da história ser a luta de classes e seu papel primordial na tarefa histórica de sua libertação para a humanidade. 

Benjamin também aponta para duas preocupações nas correntes marxistas de seu tempo - que podemos perceber também nos nossos -, as categorias de “classe” e de “trabalho”. 


“O pensamento dialético não pode [...] de modo algum se abster do conceito de massa, deixando-o ser substituído por aquele de classe. Furta-se-ia com isso a um dos instrumentos para a apresentação do vir a ser das classes e dos acontecimentos nestas [...]. A formação de classes no seio de uma massa é um evento concreto e importantíssimo quanto ao conteúdo.” (Benjamin, 2009. rodapé-pp. 42)

Quanto à “classe” ele defende a “teoria das massas”. Penso que ele procurava dessa forma, fugir do cientificismo em busca de uma teoria e práxis que fosse criada - pela e para - a própria classe oprimida no seu processo de luta contra as opressões que se dão em diversas frentes materiais, ideológicas e na possibilidade de ação dos sujeitos históricos, que vão desde o seu processo de tomada de consciência e formação política, até às inúmeras revoltas que compõem o período pré revolucionário, e indo além, nos períodos durante e no pós revolução. 

Tentando tensionar um pouco, consigo entender essa tese, no atual momento histórico, à luz de toda a tentativa da cultura burguesa de caricaturar e ridicularizar a qualquer noção de cultura popular (o “populacho”), criando sistemas de diferenciação cultural que uniformiza, deforma, escarnece e cria não identificação, ou seja, aliena, mistifica e estigmatiza, todos os símbolos culturais populares, fazendo com que os trabalhadores criem uma série de preconceitos estigmatizados quanto ao ser pobre e trabalhador (“favelado”, “suburbano”, “vagabundo”, “barraqueira”, “piriguete”, etc), rejeitando à priori qualquer tentativa de enquadramento na noção de massa


Representação esteriotipada do pobre na cultura


Isso tem duas consequências diretas observáveis no nosso tempo, tanto no campo cultural, do senso comum e na intelectualidade: a primeira é a maior permeabilidade das ideologias neoliberais, a adoção da meritocracia e individualismo que aparta os sujeitos da construção coletiva, em torno de estrutura mítica do self made man, e que através dela (e somente dela) é possível vencer as barreiras que apartam as frações de classe no seio do proletariado - que em sobretudo nas sociedades periféricas, onde são profundamente mais marcadas pelo abismo virulento das desigualdades de classe, raça e gênero -, criando a crença de que a ascensão de classe individual é possível; o segundo, cria cúmplices dentre os oprimidos, militantes obstinados que não só propagam os ideais liberais burgueses, mas combatem qualquer tentativa de elaboração de outras formas possíveis de ser e estar no mundo, ao mesmo tempo, obnubilam o papel do Estado burguês na manutenção do domínio de classes. 

Esses guerreiros quixotescos, se apresentam como anti-sistêmicos e representantes da rejeição dos modelos tradicionais da política, do direito e do Estado burguês através de uma pseudo cisão entre política e costumes tradicionais, reforçando o status quo formando assim, uma verdadeira vanguarda de paladinos do atraso, na acepção da palavra, que desemboca na legitimidade popular. Essa legitimidade popular só é possível porque os trabalhadores exauridos pelas jornadas de trabalho cada vez maiores e mais flexíveis, além da crescente investida na desregulamentação do trabalho, a cada vez mais precarizada infra estrutura urbana que não dá conta da demanda crescente trabalhadores que necessitam das vias públicas (ou do transporte coletivo) aumentando o tempo de deslocação entre trabalho-moradia, somando-se à falta de planejamento urbano fazendo com que bairros tenham o saneamento básico cada vez mais insuficiente, além da depredação às conquistas históricas da classe trabalhadora como sistemas de educação e saúde pública, gratuita e universal, o sequestro das formas de organização da classe trabalhadora pelo patronato como as cooperativas e sindicatos, isso para não falar da crescente influência das igrejas neopetencostais e do proselitismo religio, etc. Tudo isso faz parte de um projeto agressivo de mercantilização de todos os âmbitos da vida! Isolados pelo individualismo liberal e empobrecidos culturalmente, desde que a cultura se tornou uma mercadoria, a classe trabalhadora se torna cada vez mais refém aos bombardeios de informações desencontradas das agências de notícias e de redes de fake news financiadas por Think Tanks, representantes de grandes conglomerados de capital. Como se a tragédia fosse pouca, isso ainda se coliga na reabilitação do fascismo, que assistimos na contemporaneidade e na rejeição da Teoria das Massas, em especial, por parte da intelectualidade.  

No âmbito mundial, isso se traduz na cisão irreconciliável entre as classes trabalhadoras dos centros metropolitanos e das periferias, que encontra no chauvinismo e nas teorias supremacistas, um refúgio. Esse pacto da classe trabalhadora dos centros capitalistas em torno da manutenção das condições de vida, níveis de empregos e salários, sustentado por sucessivos novos ciclos de colonização e aprofundado pelo imperialismo cada vez mais brutal, afasta qualquer iniciativa no sentido do exercício da solidariedade de classe, radicalizando o ódio à minorias políticas, ressuscitando ideólogos do eurocentrismo, racismo científico e nazi-fascismo. E como o marxismo não está alheio, pairando sobre a realidade material, essas disputas aparecem como pensamentos intrusivos nas teorias dos intelectuais do eurocomunismo, fazendo-os se perder numa série de argumentações desconexas da categoria de universalidade e de becos sem saída teóricos sem sentido, engrossando coro com ideólogos liberais, quando não, legitimando a renúncia à única teoria, capaz de fazer frente ao capitalismo de maneira radical e definitiva. 

Continuando nos argumentos de Walter Benjamin, quanto à categoria de “trabalho”:


“Entre esses, há um conceito de natureza que se destaca de modo ameaçador das utopias socialistas anteriores ao março de 1848. O trabalho, como agora compreendido, visa a uma “exploração da natureza”, que é associada, de maneira ingênua e complacente, à exploração do proletariado. |Comparada| essa concepção positivista |marxista vulgar|, os delírios tão ridicularizados de um Fourier revelam uma surpreendente vitalidade de sentido. [...] Isso tudo ilustra serve para ilustrar um trabalho que, longe de explorar a natureza, faz nascer suas criações, que dormem no seu ventre como possibilidades. Ao conceito corrompido de trabalho corresponde, como seu complemento, a natureza, a qual, como Dietzgen se expressou, ‘está aí de graça’.” (Benjamin, 2009. pp. 31)


No livro I de “O Capital”, Marx descreve o trabalho no início do capítulo V, da seguinte maneira: 


“O trabalho é, antes de tudo, um processo entre o homem e a natureza, processo este em que o homem, por sua própria ação, medeia, regula e controla seu metabolismo com a natureza. Ele se confronta com a matéria natural como com uma potência natural [Naturmacht]. A fim de se apropriar da matéria natural de uma forma útil para sua própria vida, ele põe em movimento as forças naturais pertencentes a sua corporeidade: seus braços e pernas, cabeça e mãos. Agindo sobre a natureza externa e modificando-a por meio desse movimento, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências que nela jazem latentes e submete o jogo de suas forças a seu próprio domínio.” (Karl Marx, 2013. pp. 326 - 327. *grifos nossos)


Anjo da História
A mim, parece completamente consonante a concepção benjaminiana de trabalho, com a marxiana. Essa contraposição trabalho versus natureza foi difundida pelas teorias do trabalho liberais e incorporadas por diversos historiadores, cientistas sociais, economistas, etc., nas palavras de Benjamin, marxistas vulgares, e difundidas como se Marx as tivesse dito, o que - como espero que tenha ficado explicitado na passagem destacada acima - não é verdade. 

É importante ressaltar essa questão porque: a oposição do homem e natureza, nasce na filosofia clássica grega e serve de elemento ideológico legitimador do primeiro período de expansão colonial e do racismo científico durante os séculos XVI, XVII e XVIII e retoma à cada nova rodada de colonização européia, como podemos observar nos séculos XIX e XX em África, Oriente Médio e Ásia - por exemplo -, através do darwinismo social e do projeto político que dele surge e é implementado pelo nazi-fascismo, a eugenia. Hoje, vários ecossocialistas e decoloniais se  debatem em mais um desses becos sem saída, do qual falávamos acima, um deles é a contradição trabalho e natureza, partindo dessa concepção errônea e vulgar, que seria facilmente resolvida com a leitura de Marx à luz de Walter Benjamin!

Mais uma preocupação de Benjamin diz respeito ao progresso na óptica reformista da social-democracia. Segundo ele, existem três ideias que não se desvinculam nas análises historicistas:


  1. “a imagem do progresso que os socialdemocratas desenhavam era a do progresso da humanidade mesma (e não apenas de suas capacidades e conhecimentos)”;

  2. “ele era interminável (correspondente a um infinito aperfeiçoamento da humanidade)”;

  3. “tomado como um processo essencialmente irresistível (percorrendo automaticamente uma trajetória reta ou em espiral).


Dessa forma, o progresso deve ser exaustivamente criticado desvelando concepção vazia e homogênea das série de acontecimentos ligados pelos nexos causais do historicismo, fazendo explodir o continuum tempo-agora presente na história materialista, Benjamin opera a essa altura categoria de aufhebung com uma invejável destreza. Ele destaca o papel do devir histórico de preservar ao mesmo tempo que supera em seu processo revolucionário das massas em sua ação, “associada à concepção aristotélica do momento de virada da tragédia, a peripécia” (Benjamin, 2009. rodapé-pp. 47). Nesse sentido, ele liga a história materialista ao princípio de construção, como essa ideia foi operacionalizada por Marx em sua concepção de “sociedade sem classes”, e como o neokantismo a imobilizou com uma ligação com o “ideal” associado ao “infinito irrealizável”.  


“O materialismo histórico não pode abdicar do conceito de um presente que não seja transição, mas no qual o tempo parou e se suspendeu.” (Benjamin, 2009. pp. 35)

Por último, outro ponto que me impactou profundamente foi o compromisso da classe trabalhadora em luta não é o papel de salvar o futuro, mas o ajuste de contas com o passado, a redenção dos nossos antepassados escravizados e sacrificados no altar da história pelos vencedores e os espólios que disso sucederam. O pacto de redenção que Benjamin propõe, lembra muito a leitura de Fanon em “Os Condenados da Terra”, e ambos concebem o papel da violência revolucionária e ódio de classe como o motor para libertar as massas trabalhadoras de seu atual imobilismo. 


“Em outras palavras, a representação de felicidade se associa, de modo indissolúvel, à de redenção. Com a representação do passado, de que a história faz seu objeto, ocorre o mesmo. O passado traz consigo um índice temporal secreto que o remete à redenção.” (Benjamin, 2009. pp. 52)


Dessa forma, os bens culturais apregoados pela reivindicação da tradição não são nada além do testemunho da barbárie. Isso fica evidente quando nos deparamos com a história dos países que sofreram com o subjugo colonial. É assim que surge a “reminiscência” dos vencidos: na esperança de consolo, que só poderá ser realizada na tão sonhada tomada do poder pela classe oprimida de outrora. A historiografia historicista sabe que tão forte quanto o impulso destrutivo é o impulso de salvação, e nessa perspectiva é a historiografia materialista que se revela autêntica. 


A REVOLUÇÃO É A LOCOMOTIVA DA HISTÓRIA DO MUNDO: NENHUMA GLÓRIA PARA O VENCEDOR, NENHUMA COMPAIXÃO PARA OS VENCIDOS! 


Revolução Argelina 1954


Impressões pessoais

O livro é um tanto quanto chato para quem deseja conhecer as obras de Walter Benjamin, não indico que comece a leitura por essa obra em específico. Mas é uma leitura obrigatória para qualquer marxista, sobretudo daqueles, que como eu, se ocupam da corrente marxista anticolonial e através dela, vários outros escritos de autores da nossa corrente ganham um novo sentido. 

A conexão de memória e esquecimento, em oposição a não-existência é brilhante, e me deixou super empolgada com tudo que ia lendo! Como disse no início da resenha, infelizmente não foi uma obra que me permitiu a imersão, creio que seja pelo seu caráter experimental, essas notas eram de uso pessoal e Benjamin ainda não estava certo se deveria publicá-las, embora tenha manifestado o desejo em várias de suas cartas pessoais. 

A ligação entre materialismo histórico dialético e a teologia foi outro aspecto que me pegou desprevenida, é claro que a gente sabe da ligação umbilical de ambos, afinal de contas, os escritos da juventude de Marx se ocupam bastante do tema. Mas geralmente isso é passado para nós como um tema acessório, quase como uma curiosidade da vida de Marx, nas mãos de Benjamin isso também ganha um novo significado: a luta ideológica, uma das mais difíceis de serem travadas, no contexto atual, principalmente após o crescimento exponencial das igrejas neopentecostais. Isso mostra que ainda há muito a ser feito a esse respeito pelo nosso campo de esquerda radical. 

As notas trazem consigo grandes chaves de análise que seria impossível aprofundar aqui, quanto a isso, peço desculpas ao leitor, o que tentei fazer foi mostrar a atualidade da obra no atual contexto histórico, para ressaltar as contribuições que o autor traz para o campo historiográfico. 

Aproveitando que a categoria de reminiscência do autor diz respeito ao mesmo conceito no judaísmo, também queria destacar o enlace entre a reminiscência e a ancestralidade tão presente nas religiões de matriz africanas e indígenas pelo mundo e como existe aqui um potencial revolucionário. Não é sem motivo que alvos do mais rasteiro preconceito branco burguês! - Fica aqui uma nota pra mim mesma: a de aprofundar o entendimento nessa potencialidade revolucionária. 

Livros como esse nos mostram como os avanços científicos, inclusive na ciência do proletariado, são fruto do acúmulo e da construção coletiva; renovam nossas esperanças e aumentam nossa convicção de estar do lado certo da história. 


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